sábado, 18 de julho de 2015

Pré-câncer



No início de 2013, eu comecei a me sentir doente. Me sentir fraca, cansada, atribuindo tudo isso a maternidade, ao fato do meu filho mamar pra caramba. 

Basicamente, às vezes alguns tipos de comida me faziam mal, e eu ficava tonta, enjoada, vomitava, tinha diarréia. 

O tempo foi passando e os sintomas aumentando. Às vezes eu passava muito mal, e tinha que ser levada pro hospital, super fraca. Pra resumir e começar a contar o desenrolar da história: Durante longos 8 meses eu passei mal e fui pro hospital várias vezes. Uma semana sim, e outra não; ou toda semana, ou 2x por semana, com muita frequência, e sempre os médicos diziam que era virose. 

Um dia daqueles que eu tava me sentindo mal, dei boa noite pro meu marido, meu filho já estava dormindo e fui dormir. Acordei tremendo de frio. Everton colocou mais 2 cobertores em cima de mim, mas eu não parava de tremer. Ele deitou e me abraçou e eu tremia mais ainda. Ele mandou eu tirar a roupa e ir pro banho quente. Mas eu não parava de tremer. E ele começou a me olhar com cara de assustado. Davi acordou. 

Com Davi no colo Everton estava muito nervoso, e me disse que ia ligar pra ambulância, e eu disse: amor, eu só estou com frio, muito frio. Ele dizia meu Deus, meu Deus. Foi então que encolhida no chuveiro, eu olhei pros meus pés e pras minhas mãos e estavam completamente roxos, e o roxo ia subindo muito rápido, virei pro espelho, meu rosto tava branco azulado, lábios roxos, e eu comecei a me apavorar também, e pedi pra ele ligar imediatamente pra ambulância. Eu achei que eu iria morrer. Nisso eu comecei a vomitar muito.

No hospital, eles me medicando e eu ainda tremia muito. Eu estava com uma febre altíssima. Tive que passar a noite em observação na emergência, e achei melhor Everton ir pra casa com Davi.

No outro dia, depois que a febre passou, me mandaram embora. Perguntei o que havia acontecido, e mais uma vez o diagnóstico foi virose. E eu pensei: nossa, não sabia que as pessoas podiam morrer de virose, pois eu quase morri.

E o tempo foi passando e os sintomas piorando. Às vezes era tanta dor, que me davam morfina, e ainda assim continuavam afirmando o diagnóstico de virose.

Até que um dia, numa das minhas idas ao hospital, uma médica sentou ao meu lado e começou a conversar comigo e realmente me deu atenção. E ela mandou fazer exames, de sangue, urina e fezes. E disse pra ir na GP (general practitioner, seria como um clínico geral) na semana seguinte para pegar o resultado.

Após uma semana, fui na GP e ela disse que os meus exames tinham sido enviados para Christchurch, para confirmar os resultados, e que ela me ligaria quando tivesse o resultado. Achei estranho, mas esperei.

Ela me chamou então, e disse que tinham encontrado muito sangue nas minhas fezes e também calprotectina muito elevada. E que eu teria que fazer mais exames, exames mais completos para descartar e confirmar diagnósticos.

Repeti todos os exames, e fui também até Clyde, no Dunstan Hospital, fazer um CT Scan.

Me encaminharam para uma gastro de Invercagill, que veio atender aqui no hospital de Queenstown. Ela me explicou que várias doenças relacionadas ao intestino já tinham sido descartadas, com todos os exames que eu tinha feito, e que tinham sobrado apenas duas: doença de crohn e câncer.

Eu fiquei sentada, paralisada, sem acreditar no que eu estava ouvindo. Mil coisas passaram na minha cabeça, e eu quis muito ter acreditado em todos aqueles médicos que deram o diagnóstico de virose.

Ela me disse que eu teria que fazer mais exames e também uma colonoscopia. Da sala que estávamos mesmo, ela ligou pro setor do hospital responsável pela colonoscopia. E por incrível que pareça, eu acredito que eles se recusaram a me atender aqui porque eu era estrangeira. Digo isso baseada na fala da gastro ao telefone, como: "Mas ela já está aqui há 4 anos e meio", "Mas isso é ridículo, ela nao é neozelandesa, mas paga impostos", e finalizou dizendo: It's a shame! Então me disse que não tinha vaga pra fazer aqui em Queenstown mesmo, e que eu teria que fazer em Invercagill, e ela mesma marcaria pra mim.

Eu contei tudo ao meu marido e ele me disse que já estava desconfiado, por tudo que ele pesquisou na internet, mas não queria me assustar e me deixar mais nervosa. 

A partir dai tudo começou a ficar muito estranho, eu tentava ser forte pra meu marido e meu filho, mas eu estava morrendo de medo. Meu marido tentava ser forte pra mim, mas estava assustado.

Comecei a dieta para fazer a colonoscopia: primeiro dia, coisas leves e líquidos; segundo dia, apenas líquidos; e o terceiro dia nem água :(

Fomos um dia antes para Invercagill, para dormir lá e já acordar lá pro exame. Pois eu já estava fraca e doente, e a dieta me deixou pior ainda. Sem contar que na noite anterior, tem que tomar 2 litros de laxante.

Fiz a colonoscopia, e depois que acordei da anestesia, a médica disse que encontrou múltiplos pólipos no meu intestino, mas nada muito grande. Nós ficamos muito animados e felizes com isso. Ela disse que mandaria tudo para biópsia, e me chamariam para pegar o resultado.

Eu não me lembro com prescisão, mas acho que após 8 dias saiu o resultado. Me ligaram de Invercagill, me dizendo que eu precisava ir ver a minha GP urgente. Fiquei super nervosa de novo, liguei pro Everton vir pra casa ficar com o Davi e fui lá.

Chegando lá, ela com todo jeito, me disse que o resultado da biópsia deu que eram adenomas com alto grau de displasia. Eu perguntei o que era isso, e ela me explicou detalhadamente e chamou isso de pré-câncer. Me explicou que é um passo antes do câncer maligno, que os adenomas com alto grau de displasia sempre viram câncer maligno. E como não sabíamos há quanto tempo eles estavam no meu intestino, teríamos que fazer mais exames e outra colonoscopia urgente.


Eu controlei as lágrimas ao máximo, até chegar no meu carro. Então eu desabei, chorei um monte. Passa um filme dentro da cabeça da gente. Meu filho, meu marido... Eu não estava preparada para deixá-los!


Ainda que não fosse câncer ainda, eu não esperava um pré-câncer também. 


Parei de chorar e comecei a dirigir pra casa, mas as lágrimas continuavam caindo e nublando meus olhos.


Cheguei em casa, abracei o Everton e chorei muito.


Resumindo: era doença de crohn e também os adenomas com alto grau de displasia.


Esqueci de mencionar anteriormente, que eu estava o tempo todo em contato com o meu médico no Brasil. E ele estava sempre me acalmando e me animando. Mas quando eu liguei pra ele para contar o resultado, ele me disse: sim, agora é sério! :(


Além de você saber o que tem, você ainda tem que aturar os sintomas. Passei a tomar remédios fortíssimos, eram 7 por dia. Tinham efeitos colaterais também. Um deles eu li que poderiam cair os cabelos. 


Eu fiquei uma semana muito pra baixo e desanimada. Everton ficava forte pra mim em casa, mas fiquei sabendo que ele não estava conseguindo trabalhar direito. A pressão é muito grande.


Após uma semana, eu disse: Deus, eu não passei tudo que passei, pra chegar até aqui e ser vencida por uma doença. Ainda não virou câncer, mas mesmo que fosse, pra você não é nada! Deus, têm promessas que você me fez que ainda não se cumpriram, então eu não vou morrer enquanto o Senhor não cumprir. Eu sei disso, é nisso que eu acredito.


Então eu passei a orar com mais confiança, pois já tinha passado o momento do choque, do abalo.


O tempo foi passando e eu indo em Invercagill, médicos, exames. Fui ver um cirurgião em Invercagill e sai de lá super desanimada. Ele desenhou meu intestino num papel e com a caneta foi fazendo riscos e dizendo: vamos cortar aqui, e aqui, e aqui também, e mais aqui; dai o que sobrar eu emendo tudo! Parecia que tava falando de uma roupa, mas era do meu intestino.


Um dia eu tive uma dor terrível, insuportável, e eu pedi para um flatmate olhar meu filho pra mim e pro outro ligar pro Everton.


O Everton chegou em casa super rápido, eu tava caída no chão do banheiro, com uma dor insuportável, eu não estava mais aguentando. Eu lembro que eu disse a ele: amor, por favor, cria nosso filho nos caminhos do Senhor, não deixe ele se desviar por favor. Eu vou morrer, eu não aguento mais.


Doença de chron e pré-câncer juntos... estavam literalmente me matando.


Fui pro hospital, fiquei lá a base de morfina, e sobrevivi.



Uma noite eu tive um sonho: sonhei que eu estava num local grande tipo um salão, com muitas pessoas lá dentro. De repente todas as pessoas começaram a gritar e correr. Quando eu percebi, um leão tinha entrado lá. Eu fiquei sem reação, não sabia pra onde correr. Então me deitei numa fileira de cadeiras. E o leão foi vindo devagar na minha direção. Ele chegou bem perto de mim, e eu tava respirando muito ofegante, completamente assustada. Então, uma sombra em forma humana, branca, não dava para ver rosto, pegou na minha mão e com voz de mulher, disse: Não tenha medo!


Então o leão deu 3 mordidas na minha barriga. Mas não me cortou, não saía sangue. Após as mordidas, o leão sorriu pra mim, e foi embora. 


Eu acordei bem assustada. Contei ao Everton, e ele disse: amor, Jesus é o leão da tribo de Judá. Eu acho que Deus te curou. Eu disse: sim, Deus me curou! E tomei posse disso. 


Os dias foram passando e nossa ida ao Brasil já estava programada. Várias pessoas estavam orando por mim, família, amigos e irmãos na fé.


Um dia minha irmã me chamou e me disse que um irmão na igreja dela, onde estavam orando por mim, chegou pra ela e disse: Deus já curou a sua irmã e os médicos nem vão entender como.


No meio disso tudo, fizemos a nossa aplicação para a residência neozelândesa, fizemos antes de saber o que eu realmente tinha, quando achava que era apenas virose.


Chegou o dia de embarcarmos pro Brasil, isso em novembro. Eu já tinha marcado consulta com um especialista lá. Fui na consulta, e ele me encaminhou para um proctologista especialista em displasia, e ele marcou uma nova colonoscopia. Me explicou que nessa colonoscopia iria colocar uma tinta azul no meu intestino, e não me lembro mais como, mas através dessa tinta as áreas com displasia ficariam bem visíveis.


Mesmo pagando tudo particular, tive que esperar 10 dias pra colonoscopia acontecer.


No tempo esperando a colonoscopia, a agente da imigração que estava com nosso processo de residência, mandou um e-mail direcionado a mim, perguntando: Luana, ao pesquisar seu nome, descobri que você utilizou os hospitais da Nova Zelândia com muita frequência nos últimos meses. O que você tem? É uma doença grave? Contagiosa? Etc, etc...


Meu mundo que já estava quase desabado, caiu mais ainda. Pensei: já era a nossa residência!


Everton pediu pra eu me acalmar e pensarmos com calma em como responder pra ela.


Chorei muito, me revoltei, orei a Deus. E então no outro dia pela manhã eu disse ao Everton: Eu vou responder pra essa mulher contando toda a verdade, não vou mentir em nada, se eu mentir, Deus não vai estar do meu lado, vou falar a verdade e deixar Deus no controle. Everton disse: Isso mesmo amor, assim vai ser. Respondi a ela contando a verdade, e disse que eu estava no Brasil procurando os médicos para resolver meu problema de saúde, e que só retornaria a NZ, depois de tudo resolvido. Ela me disse que ia deixar nossa aplicação "estacionada" esperando eu entrar em contato novamente. 


No domingo eu iniciei a dieta da colonoscopia, e na segunda-feira (segundo dia da dieta, onde se toma apenas líquidos) tinha culto no Desafio Vida Jovem de Içara, e o Everton disse: amor, você está muito fraca, acho melhor ficarmos em casa. Eu disse: não, ainda que eu tenha que passar o culto inteiro sentada, nós vamos sim. E fomos.


Não me lembro a que altura do culto, o pastor chamou a frente pra oração de cura, e nós fomos a frente. Ele mandou colocar a mão na enfermidade. Eu coloquei as mãos na minha barriga. E olhei pro lado e vi Everton fazendo o mesmo, e pensei rapidamente: mas o que ele tem na barriga?


Enquanto o pastor orava, eu orei a Deus dizendo: Senhor, eu não vou te pedir para ser curada, porque eu sei que eu já fui. O Senhor já me mostrou através daquele sonho, que me curou. Mas eu sei que a cura às vezes não é imediata, às vezes ela vem através de um processo e pode demorar um pouquinho. Então eu venho te pedir através dessa oração, que se possível for, e que se for da Sua vontade, mostre a minha cura amanhã nesse exame. Eu abro mão do meu livre arbítrio para que a Sua vontade seja feita, mas se possível for, mostra amanhã a minha cura e acaba com essa angústia.


Depois do culto, perguntei ao Everton, e ele me disse que colocou a mão na barriga dele, para que eu fosse curada, porque nós somos uma só carne.


No dia seguinte fui pra colonoscopia, levei pro médico os meus exames e também as imagens e vídeos das colonoscopias que eu tinha feito aqui na NZ. Pra minha sorte, o médico tinha inglês fluente :)


Acordei da anestesia, numa sala onde Davi e Everton estavam do meu lado, esperando eu acordar. Uma enfermeira entrou com uma xícara de chá e 2 bolachas água e sal. Eu pensei: Senhor amado, 3 dias sem comer e ela me traz só 2 bolachas? Ela disse que logo o médico viria conversar comigo. Quando ela saiu Davi olhou pra mim e disse: mamãe, você me dá uma bolacha? hehehe


Dei uma pra ele e comi apenas uma.


O médico entrou na sala e já foi dizendo: Luana, eu não estou entendendo o que está acontecendo, nada do que vi nos seus exames da Nova Zelândia eu encontrei no seu intestino. 


Eu e Everton olhamos um pro outro e sorrimos, um sorriso realmente feliz em meses.


O médico continuou dizendo: Eu vou na sala do meu colega e vamos rever tudo novamente e eu volto aqui.


Ele voltou dizendo, é realmente não estou entendendo o que aconteceu, mas não encontrei mais nada no seu intestino.


E eu tive a comprovação da minha cura, pra honra e glória do nome do Senhor Jesus.


Voltamos para a Nova Zelândia em 21 de janeiro de 2014, e trouxe meus exames e mandei traduzir e enviei pra agente da imigração. No dia 18 de fevereiro de 2014, menos de 1 mês depois da nossa volta, recebemos a nossa residência aprovada :)


Toda honra e toda glória a Deus!



9 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Deus é maravilhoso! Linda obra de libertação, mais uma prova de que ele tudo pode.

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    2. Deus é maravilhoso! Linda obra de libertação, mais uma prova de que ele tudo pode.

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  2. Angelica Van Dall25 de julho de 2015 15:24

    Eu já conhecia essa historia, acompanhei tua dor, angústia e livramento. Graças a Deus você venceu mais essa, amiga. Você é muito forte !

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  3. Acho que o comentário que eu acabei de postar não foi... :/
    Conheci sua história através do grupo Brasileiros na NZ e hoje me lembrei dela, pois recebi a notícia de que o câncer de meu pai, que acreditávamos ter sido curado com a cirurgia de retirada da próstata, voltou a se manifestar.
    Estamos tristes e apavorados, pois não imaginávamos que isso fosse acontecer, depois de 3 anos de bons prognósticos.
    Seu testemunho faz aumentar minha fé e esperanças de que Deus tem poder para curá-lo, se for da Sua vontade.
    Obrigada por compartilhar suas angústias e sua vitória, que mostram que Deus pode mudar muitas coisas em nossa vida.
    Fique com Deus!

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  4. Eu tenho Crohn, e o sonho diário de me mudar pra NZ. Cada dia mais intenso, mas infelizmente muitas coisas ainda me seguram no Brasil, e agora com o Real valendo NADA, tá mais difícil ainda. Sempre digo que vou p ai nem que seja p descer do avião e morrer em seguida kkk.
    Obrigada pelo seu blog, acredito muito que o acaso não existe, não encontrei suas palavras a toa, ainda mais no dia de hoje, que meu coração está tão apertado, me pedindo p ir embora deste lugar corrupto e violento (tenho pavor da violência que vivemos aqui).
    Muita gratidão por escrever este blog.
    fique com Deus.

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  5. Desejo tudo de bom e que Deus a continue a abençoar e a toda a familia. Por vezes peço a Deus mas tudo vem com uma cruz e por vezes com espinhos. Emociono-me sempre que Deus ouve os outros, mas aceito a minha pequenez. Obrigado pelo blog e por todas as dicas.

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