sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como eu sobrevivi na Nova Zelândia

Essa é a segunda parte da história, leia a primeira clicando aqui

Esqueci de mencionar na primeira parte da história que com o dinheiro obrigatório para entrar no país (mil dólares americanos de cada) compramos um notebook por $800 e um carro por $450. (Não, eu não inverti os valores, hehe)

  Bom, estavamos na época mais difícil das nossas vidas, íamos no mercado e compravamos carcaça de galinha e arroz, cozinhávamos tudo junto e ficava um arroz com um leve gostinho de galinha. Então nós pedimos ajuda para o Erick (um brasileiro que falava inglês fluente) traduzir para nós e fomos falar com o Tivo. O Tivo disse que não estava nos pagando porque a empresa que contratou ele também não estava pagando ele. Pedimos ao Erick para ir com a gente novamente até essa empresa e conversar com o dono, para saber se era verdade do Tivo. E como já imaginávamos, era mentira. A empresa sempre pagou ele em dia. Então contamos ao dono da empresa toda a nossa situação e de todos os outros brasileiros que estavam trabalhando pro Tivo. Ele foi ao mercado e comprou 2 caixas de comida e deu pra gente, e pediu para a gente voltar no dia seguinte para conversar com ele. Pegamos as caixas de comida e passamos em duas outras casas de brasileiros que também estavam trabalhando com o Tivo sem receber, e repartimos as compras com eles. No dia seguinte, ele nos deu uma lista com nomes de alguns brasileiros que ele queria trabalhando pra ele. O nosso nome felizmente estava na lista :) mas infelizmente não eram todos :( Então continuamos a trabalhar na roça, porém, nós tínhamos um visto seazonal com validade de apenas 4 meses. Nosso carro tinha que recarregar a bateria para ir trabalhar e lá na roça no fim do dia tinha que ficar de olho quando o último carro tava pra ir embora, porque tínhamos que recarregar a bateria novamente para poder ir embora.

  Um dia eu tive uma crise de cólica renal no meio da roça, e me levaram pro hospital. Eu passei muito mal e eu ficava dizendo a toda hora pro Everton: não esquece da minha alergia, por favor! Para conversarem, Everton e o médico usaram o google tradutor. O médico digitava e traduzia, Everton lia, digitava e traduzia pro médico. (gente não é engraçado!) Dai o médico disse que diante das minhas alergias a única coisa que podiam me dar era morfina, mas eu nunca tinha tomado antes e não sabia se eu tinha alergiaa ela, e por esse motivo o médico disse que Everton teria que assinar um termo autorizando eles a me darem a morfina. Eu disse pra ele assinar de uma vez, porque aquela dor tava me matando de qualquer jeito. Eles foram me dando morfina aos poucos, como teste, até que meu corpo ficou todo dormente e meus batimentos começaram a subir, então eles concluiram que eu só poderia tomar morfina na mesma dose que uma criança de 10kg =(

  Na roça, conhecemos a Maria (nome fictício), uma neozelandesa. E conversei com ela, porque o pruning estava pra acabar e expliquei que nosso visto iria acabar em breve. E ela disse para descermos a ilha sul e ir pra casa dela, que ela iria tentar nos ajudar a procurar outro emprego. Ela foi na frente e nós descemos com o nosso "carrão" que estava com WOF e registration vencidos e nós nem tínhamos idéia do que era isso. O trajeto de 12 horas, nós fizemos em 4 dias, porque já que seríamos obrigados a passar pelos lugares, não tinha como não parar e tirar fotos, diante de tanta beleza natural.



Chegamos a casa dela, numa cidadezinha de Central Otago, e foi ai que tivemos o verdadeiro choque cultural. A casa dela já estava lotada pelos membros da família, então nos botaram dormir num galpãozinho fora da casa, num colchão inflável. Na primeira noite, acordamos no chão, o colchão tinha esvaziado, e Everton teve que encher com a boca. E isso se repetiu por todas as outras 39 noites mais que dormimos lá. Os neozelandeses não têm costume de almoçar. Eles tomam café da manhã, beliscam alguma coisa durante o dia e jantam entre 5 e 6 da tarde. E a janta é prato feito, eles não colocam as panelas na mesa como nós. A pessoa que cozinhou serve os pratos e coloca na mesa para cada um. Resumindo: Tomavamos café pela manhã, ficavamos o dia inteiro sem comer (pois tínhamos vergonha de ir no armário deles pegar algo para beliscar) até na hora da janta. Normalmente um prato com 1 linguiça, uma colher grande de purê de batata, uma colher grande de ervilha, e cenouras. Enquanto ainda tínhamos algum dinheiro na conta, compramos miojo, e bolachas. Então depois que eu lavava a louça da janta, eu fazia café pra todo mundo. E na minha xícara e do Everton eu botava apenas água quente, e íamos pro galpãozinho e colocavamos aquela água quente no miojo, esperavamos ele amolecer um pouco e comiamos, pra matar um pouco mais da fome. Quando o dinheiro acabou, era só a comida deles mesmo. Everton e eu não falavamos um pro outro, mas víamos nas nossas caras que muitas vezes íamos dormir com fome. Eu as vezes olhava pra ele e pensava: como que apenas essa linguiça com vegetais vai sustentar um homem desse tamanho? Todos os dias antes de comer a gente oferecia a nossa comida um pro outro. Não podemos culpar eles, estavamos de favor na casa deles, e eles também estavam sem trabalho até começar a colheita de damasco, e é a cultura deles jantar pouco assim, porém eles comiam durante o dia, e nós não. Eu limpava toda a casa deles, lavava roupa, e cozinhava, mas ela que me dava as quantidades para cozinhar. Everton cortava grama, arrumava o pátio, passava roupa. Enfim, eles não faziam nada, nós fazíamos tudo. Era a nossa maneira de "pagar" eles pela estadia.

Vou contar agora uma parte bem pessoal, já que estou contando tudo, então lá vai... Como eu estava com problema no rim, eu procurava tomar bastante água, e por isso eu era obrigada a fazer xixi de madrugada, e não tinha banheiro no galpãozinho e a casa deles ficava chaveada. Então eu acordava e chamava o Everton, e eu ia na rua no meio de umas árvores fazer xixi. Só que começou um período de chuvas e com minhas idas à rua na chuva, comecei a ficar doente. Mas, ou era isso, ou diminuir a água e ter a possibilidade de atacar o rim novamente, e o hospital mais perto ficava a 100km de lá. Quando eu tinha sorte de a vontade vir só lá pelas 7 da manhã, eu ficava segurando, até eles acordarem e abrirem a porta da casa.

Enquanto isso a Maria fazia ligações para tentar marcar entrevistas de emprego para nós. Ela e o primo dela nos trouxeram até Queenstown, e deixamos currículos em vários lugares. Nós ficamos em oração e jejum em todo o período que estivemos lá. Pra quem pensa que jejum é apenas de comida, e vai pensar: já não estavam comendo muito mesmo. Eu digo que jejum é muito mais, é dedicar todo o período de jejum a Deus, lendo a bíblia, louvando, e não fazendo nada que satisfaça a carne.

Nesse período todo que estivemos lá, não tínhamos acesso a internet. A sorte que eu tinha baixado alguns filmes pro computador. Só que essa sorte não durou muito, um dia o computador simplesmente não ligou mais. E num dia que o primo foi na cidade vizinha, fomos juntos e fomos numa filial da Dick Smith, e na mesma hora eles nos deram um novo computador e ficaram com o pifado, porém não nos deram nenhum backup de nada, perdemos tudo, fotos do Brasil, toda nossa vida até ali. Voltamos pra casa (nosso galpãozinho) com um computador novo, mas vazio. Sem tv, o jeito era orar e conversar até dormir. Até que um dia que todos sairam, eu botei o cabo da internet no nosso pc e baixei 3 vídeos de músicas evangélicas. Vimos tanto aqueles  3 vídeos, que sabemos decor o que os cantores e o pessoal do banco faz no vídeo :)

O tempo foi passando e nada de aparecer um emprego. Nosso inglês também não ajudava. Então quando faltava 1 semana para o nosso visto vencer, estávamos sentados na rua pegando um solzinho e a Maria foi até nós e disse: Infelizmente vocês não tem mais tempo, eu vou ter que ligar para o aeroporto e marcar a passagem de vcs de volta para o Brasil. Pois vocês não podem permanecer no país nem um dia sequer ilegal. Eu pensei: como assim, meu Deus? Eu baixei a minha cabeça e comecei a chorar. E a Maria continuou falando... Quando eu levantei a minha cabeça, eu tive uma visão, eu vi a Maria toda sorridente, segurando um bebê no colo. E eu sorri e meu coração se alegrou e eu falei em português para o Everton: amor, a menos que a Maria vá lá no Brasil segurar um filho nosso no colo, a gente vai ficar na Nova Zelândia. Ele me olhou sem entender nada. Dai eu disse para a Maria: por favor, nos dê apenas mais um dia, até amanhã no fim do dia, se nada acontecer, dai você liga e remarca a nossa passagem. Ela aceitou.

Continuação da história clique aqui







31 comentários:

  1. Luana!!!! Estou mega ansiosa pra ler terceira parte. Meio que. ...roteiro de novela. Não me leve a mal. Please.

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  2. Como Deus é grandioso e fiel. Nunca abandono os seus Filhos. Estou perplexo com a sua história e ancioso para ler o proximoa postagem.

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    1. Sim, Deus é fiel, tivemos muitas lutas, mas em todas elas vimos a mão de Deus agindo :)

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Como diz uma velha frase; " Mar calmo não faz bons marinheiros" ; Na maioria das vezes a gente só sente Deus agindo nas dificuldades, mas são nessas situações que Deus nós lapida e nós torna cada vez mais forte e Fiel.

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    1. Verdade, as vezes quando só nos resta a fé, descobrimos que ela é tudo que precisamos :)

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  5. Amiga, estou impressionada, vc e o Everton passaram por tudo isso e continuaram tendo fé, Deus abençoou muito vocês. Ansiosa por ler mais :D

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    1. Sim amiga, fé era tudo que a gente tinha, e foi a chave para a nossa vitória ;)

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  6. Conhecemos vocês e grande parte desta história de luta e superação. Nos serve como estímulo para nunca desistir e manter a nossa confiança firme em Deus. Esperamos vê los em breve. God bless YouTube.

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    1. Sim, vcs conhecem mesmo :)
      E já intercederam muito por nós em oração, obrigada amigos.
      Aguardando a visita de vcs aqui.
      Abraços

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  7. Cara, estou muito interessado em saber o que houve!! Nunca fui de ler blogs, mas a história que você está contando está interessante demais!!

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  8. Conhecemos grande parte desta história de amor luta e superação. Uma força a mais para nunca desistirmos dos objetivos e sempre confiar em Deus. Abraços e beijos em vocês.

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  9. Unbelievable! Vocês foram muito fortes.

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  10. Que história, é um filme, mais com final feliz!

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  11. A tua Fé te levou onde não imaginaram que vc ia chegar. Deus te ilumine.

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  12. Sua historia e impressionante ,linda,quem ve vcs nem imaginam que passaram por tudo isto

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  13. LUANA, vc tem canja pra ser escritora de telenovelas. É sério, qdo a história tá boa, daí... próximo capítulo!!!! kkkk

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